Reflexões

A menina que Ficou

Mara Cruz 2 min de leitura

Há uma menina que o tempo não conseguiu levar.

Não vive nas fotografias antigas.
Nem nas histórias que a família conta.

Vive naquele lugar invisível onde a alma guarda aquilo que um dia foi demasiado pesado para um coração tão pequeno.

Durante muitos anos pensei que tinha crescido.

E era verdade.

O meu corpo cresceu.

A minha voz mudou.

A vida seguiu o seu curso.

Mas há partes de nós que não acompanham o calendário.

Ficam onde perderam a sensação de segurança.

À espera.

Não à espera que o tempo passe.

À espera que alguém volte.

É curioso.

Passamos uma vida inteira a tentar deixar o passado para trás.

Sem perceber que, às vezes, é o passado que espera pacientemente por nós.

Não para nos prender.

Mas para ser finalmente encontrado.

Talvez seja isso que chamamos cura.

Não apagar a menina que fomos.

Nem convencê-la de que já não há motivos para ter medo.

Apenas sentarmo-nos ao lado dela, sem pressa.

Há silêncios que só podem ser habitados por duas presenças.

A dela.

E a nossa.

Talvez um dia ela levante os olhos.

Não porque o medo desapareceu.

Mas porque, pela primeira vez, reconhece no nosso olhar aquilo que passou uma infância inteira à procura.

Um lugar onde possa descansar.

E talvez, nesse instante, aconteça a mais discreta das transformações.

Não a criança tornar-se adulta.

Mas a mulher tornar-se suficientemente inteira para acolher a criança.

Há encontros que mudam uma vida.

Este acontece sem testemunhas.

Sem palavras.

Sem ruído.

Apenas uma mão que encontra outra mão.

E duas versões da mesma alma que, finalmente, compreendem que nunca estiveram separadas.

Apenas esperavam que o amor aprendesse o caminho de regresso.

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