Reflexões
A menina que Ficou
Há uma menina que o tempo não conseguiu levar.
Não vive nas fotografias antigas.
Nem nas histórias que a família conta.
Vive naquele lugar invisível onde a alma guarda aquilo que um dia foi demasiado pesado para um coração tão pequeno.
Durante muitos anos pensei que tinha crescido.
E era verdade.
O meu corpo cresceu.
A minha voz mudou.
A vida seguiu o seu curso.
Mas há partes de nós que não acompanham o calendário.
Ficam onde perderam a sensação de segurança.
À espera.
Não à espera que o tempo passe.
À espera que alguém volte.
É curioso.
Passamos uma vida inteira a tentar deixar o passado para trás.
Sem perceber que, às vezes, é o passado que espera pacientemente por nós.
Não para nos prender.
Mas para ser finalmente encontrado.
Talvez seja isso que chamamos cura.
Não apagar a menina que fomos.
Nem convencê-la de que já não há motivos para ter medo.
Apenas sentarmo-nos ao lado dela, sem pressa.
Há silêncios que só podem ser habitados por duas presenças.
A dela.
E a nossa.
Talvez um dia ela levante os olhos.
Não porque o medo desapareceu.
Mas porque, pela primeira vez, reconhece no nosso olhar aquilo que passou uma infância inteira à procura.
Um lugar onde possa descansar.
E talvez, nesse instante, aconteça a mais discreta das transformações.
Não a criança tornar-se adulta.
Mas a mulher tornar-se suficientemente inteira para acolher a criança.
Há encontros que mudam uma vida.
Este acontece sem testemunhas.
Sem palavras.
Sem ruído.
Apenas uma mão que encontra outra mão.
E duas versões da mesma alma que, finalmente, compreendem que nunca estiveram separadas.
Apenas esperavam que o amor aprendesse o caminho de regresso.
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