Recomeços

A mulher que caminhava

Mara Cruz 3 min de leitura

Havia uma mulher a caminhar.

Durante dias, foi isso que ela fez.

Caminhava de manhã.

Caminhava cansada.

Caminhava em silêncio.

Caminhava acompanhada.

Caminhava mesmo quando o corpo lhe pedia para parar.

E, sem perceber, enquanto avançava pelos Caminhos de Santiago, começou também a aproximar-se de si.

Aquela mulher levava uma mochila às costas.

Mas não levava apenas roupa.

Levava pensamentos.

Medos.

Perguntas.

Algumas dores que ainda não sabia onde colocar.

Levava uma vida inteira de coisas que tinham ficado por resolver.

E talvez por isso a mochila, por vezes, parecesse mais pesada do que devia.

No início, queria chegar.

Como queremos tantas vezes na vida.

Chegar ao destino.

Cumprir a etapa.

Saber quantos quilómetros faltavam.

Ter uma meta.

Mas o Caminho foi-me ensinando outra coisa.

Que nem sempre é preciso chegar depressa.

Que há paisagens que só vemos quando diminuímos o passo.

Que há conversas que só acontecem porque caminhamos lado a lado.

E que há pensamentos que só conseguimos ouvir quando o mundo à nossa volta fica suficientemente silencioso.

A mulher que caminhava começou a reparar em si.

Na respiração.

Nas pernas cansadas.

Na fome.

Na sede.

Na dor.

No descanso de que precisava.

E percebeu uma coisa tão simples quanto importante:

o corpo também fala.

Talvez ela tivesse passado demasiado tempo a exigir-lhe que continuasse.

Mais um pouco.

Só mais um dia.

Só mais uma coisa.

Só mais uma responsabilidade.

No Caminho, começou a ouvi-lo.

Quando precisava de parar, parava.

Quando precisava de descansar, descansava.

Quando tinha fome, comia.

Quando estava cansada, reconhecia o cansaço.

Parecia simples.

Mas talvez fosse uma das primeiras vezes em muito tempo em que não tentava ultrapassar imediatamente aquilo que sentia.

E depois havia o silêncio.

Um silêncio diferente daquele que conhecia.

Não era vazio.

Era espaço.

Espaço para pensar.

Para sentir.

Para se lembrar.

Para não fazer nada.

Para simplesmente estar.

E naquele espaço começaram a aparecer perguntas.

Não as perguntas que os outros lhe faziam.

As dela.

O que quero?

O que me faz bem?

O que já não quero?

Onde me sinto inteira?

Que vida quero viver?

Não encontrou respostas para todas.

Ainda bem.

Porque talvez o Caminho não lhe tivesse sido dado para responder.

Talvez lhe tivesse sido dado para aprender a perguntar.

A mulher que caminhava também descobriu que não precisava de estar sempre acompanhada.

Gostava das conversas.

Das pessoas que encontrou.

Das histórias partilhadas.

Dos encontros inesperados.

Mas descobriu qualquer coisa sobre a sua própria companhia.

Podia estar sozinha sem se sentir necessariamente só.

Podia caminhar em silêncio e não precisar de o preencher.

Podia ouvir os próprios pensamentos sem fugir deles.

E talvez tenha sido aí que começou verdadeiramente o reencontro.

Não quando chegou a Santiago.

Mas muito antes.

Num passo.

Depois noutro.

E noutro.

Porque talvez reencontrarmo-nos não seja um momento.

Talvez seja um caminho.

A mulher que caminhava não voltou para casa com todas as respostas.

Voltou com outras perguntas.

E com uma coisa que talvez fosse ainda mais importante:

uma vontade diferente de se escutar.

Trouxe a certeza de que precisava de mais presença.

Mais consciência.

Mais espaço para si.

E uma vontade de não voltar a viver tão longe da mulher que tinha encontrado naqueles dias.

Hoje, quando penso nela, tenho vontade de lhe agradecer.

Àquela mulher que caminhou mesmo quando estava cansada.

Que continuou mesmo quando não sabia exatamente para onde aquela caminhada a levaria.

Que deixou o caminho acontecer.

Que, durante alguns dias, não tentou ser nada além de si própria.

Ela talvez não soubesse.

Mas estava a voltar.

Não para casa.

Para si.

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