Recomeços
A pessoa que só queria conversar
Pessoas que ficaram
Havia pessoas que entravam na farmácia e sabíamos logo que não tinham pressa.
Não porque tivessem alguma coisa para comprar.
Mas porque tinham alguma coisa para contar.
Havia uma senhora assim.
Chegava, pousava as coisas no balcão e começava.
Às vezes era sobre a saúde. Outras vezes sobre os filhos. Sobre o marido. Sobre alguém que tinha feito qualquer coisa que não devia. Sobre uma vizinha. Sobre o tempo.
Às vezes nem me lembro exatamente do assunto.
Lembro-me da conversa.
E lembro-me de perceber, pouco a pouco, que talvez não estivesse ali para falar sobre aquilo que dizia estar.
Só queria conversar.
Talvez tivesse passado o dia inteiro sem ninguém lhe perguntar como estava.
Talvez em casa o silêncio fosse demasiado grande.
Talvez precisasse apenas de contar a alguém uma coisa que, para outra pessoa, poderia parecer insignificante.
E eu ouvia.
Nem sempre tinha tempo.
Esse era talvez o conflito mais difícil daquela profissão.
Havia pessoas à espera.
Havia telefones a tocar.
Havia receitas, medicamentos, perguntas, tarefas.
E, no meio de tudo isso, havia alguém à minha frente que precisava de cinco minutos.
Cinco minutos que, para mim, podiam parecer pouco.
Mas que talvez fossem a parte mais importante do dia daquela pessoa.
Comecei a perceber que conversar também podia ser uma forma de cuidado.
Não resolver.
Não aconselhar.
Não dizer o que deveria fazer.
Apenas ouvir.
Porque nem sempre queremos uma solução.
Às vezes queremos simplesmente dizer aquilo que temos dentro sem que alguém tente imediatamente arrumar os nossos sentimentos.
Talvez seja uma das coisas que mais me surpreendeu na farmácia.
Pensava que as pessoas vinham buscar medicamentos.
E muitas vinham.
Mas algumas vinham buscar outra coisa.
Um pouco de atenção.
Um rosto conhecido.
Uma pergunta.
Um sorriso.
Cinco minutos.
Um lugar onde pudessem falar sem sentir que estavam a incomodar.
Hoje, quando alguém começa uma conversa que parece não ter grande importância, tento não interromper logo.
Porque aprendi que, muitas vezes, a conversa não é o assunto.
É o pretexto.
E talvez aquela pessoa não esteja ali porque precisa de falar.
Talvez esteja ali porque precisa de sentir que, naquele momento, alguém está disposto a ouvi-la.
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Mara muito obrigada pela partilha. Tens o dom da palavra e do verdadeiro significado da experiência humana. Um grande beijinho.