Recomeços
A primeira pessoa que nunca me esqueci
Pessoas que ficaram
Há pessoas que passam pela nossa vida e ficam.
Não sabemos muito bem porquê.
Talvez por uma frase. Por um olhar. Por uma história que nos contaram. Ou simplesmente pela forma como, sem darmos conta, nos fizeram sentir alguma coisa.
Há uma senhora de quem nunca me esqueci.
Vivia sozinha.
Fazia cerca de 20 quilómetros para ir àquela farmácia específica. Não queria ser atendida por qualquer pessoa. Gostava de ser tratada por Dra.
E eu gostava dela assim.
Chegava sempre muito arranjada. O cabelo cuidadosamente penteado, sem um fio fora do lugar. A roupa era de outros tempos. Via-se que as peças eram antigas, talvez de muitos anos atrás. Mas estavam sempre impecavelmente limpas e cuidadas.
Havia nela uma espécie de dignidade silenciosa.
E havia também uma necessidade muito simples, ser ouvida.
Muitas vezes, percebia-se que não tinha propriamente pressa de ser atendida.
Queria conversar.
Queria contar.
Queria que alguém lhe desse alguns minutos de atenção.
E talvez fosse esse o verdadeiro motivo dos 20 quilómetros.
Não era aquela farmácia.
Era a sensação de que ali alguém a conhecia.
De que ali não era apenas mais uma pessoa na fila.
De que ali podia ser a senhora que gostava de ser tratada por Dra., que vinha sempre com o cabelo arranjado e a roupa antiga impecavelmente cuidada.
Que podia falar.
E alguém ficaria a ouvir.
Na altura, talvez eu ainda não tivesse consciência do quanto aqueles encontros me estavam a ensinar.
Porque trabalhamos numa farmácia e pensamos que estamos ali para dispensar medicamentos, esclarecer dúvidas, explicar tratamentos.
Mas, às vezes, o que uma pessoa traz consigo não cabe numa receita.
Traz solidão.
Traz medo.
Traz histórias que ninguém pergunta.
Traz dias inteiros sem falar com ninguém.
E, por vezes, aquilo que procura atrás do balcão é apenas alguém que não tenha pressa de a mandar embora.
Hoje penso nela muitas vezes.
Pergunto-me onde estará.
Se continua a viver sozinha.
Se ainda se arranja com o mesmo cuidado.
Se ainda gosta que lhe chamem Dra.
E pergunto-me se ela alguma vez soube que, para mim, não foi apenas mais uma pessoa que entrou numa farmácia.
Foi uma das primeiras pessoas que me ensinou que cuidar também pode ser ficar.
Ficar mais cinco minutos.
Ouvir a mesma história outra vez.
Não olhar para o relógio.
Não tentar resolver.
Apenas estar.
Talvez seja por isso que nunca me esqueci dela.
Porque há pessoas que nos deixam muito mais do que aquilo que levam.
E ela deixou-me uma pergunta que ainda hoje me acompanha:
Quantas pessoas entram na nossa vida a pedir um medicamento, quando aquilo de que realmente precisam é de alguém que as escute?
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