Recomeços
Aprender a caminhar devagar
Eu sempre tive pressa.
Nem sempre uma pressa visível.
Às vezes era apenas aquela sensação interior de que devia estar a fazer alguma coisa.
A resolver.
A decidir.
A avançar.
A chegar.
Como se a vida fosse uma sucessão de destinos e eu tivesse de estar sempre a caminho do próximo.
Nos Caminhos de Santiago, descobri que o corpo não negoceia com a pressa.
Podemos querer andar mais depressa.
Podemos querer chegar antes.
Podemos olhar para os quilómetros que faltam e desejar que fossem menos.
Mas o corpo sabe.
E há momentos em que ele simplesmente diz:
Devagar.
No início, não foi fácil.
Eu queria cumprir.
Queria chegar.
Queria sentir que estava a fazer bem.
Até perceber que o Caminho não era uma prova.
Não havia um prémio para quem chegasse primeiro.
E, de repente, a pergunta deixou de ser:
“Quanto falta?”
E passou a ser:
“O que estou a perder enquanto tento chegar?”
Foi aí que comecei a caminhar devagar.
E quando abrandei, comecei a ver.
Vi coisas que provavelmente teriam passado despercebidas se estivesse preocupada apenas com o destino.
Uma casa antiga.
Uma flor pequena no caminho.
A luz a atravessar as árvores.
Uma paisagem que parecia diferente alguns minutos depois.
Uma pessoa a caminhar sozinha.
Um sorriso.
Uma conversa inesperada.
O mundo não tinha mudado.
Eu é que finalmente estava suficientemente devagar para o reparar.
E percebi que talvez tivesse vivido assim durante muito tempo.
A correr por dentro.
Mesmo quando estava parada.
Sempre a pensar no que faltava.
No que devia fazer.
No que viria depois.
E, enquanto fazia isso, talvez tivesse perdido algumas coisas que só acontecem quando estamos presentes.
No Caminho, aprendi que devagar não significa parar.
Significa continuar sem estar constantemente a tentar chegar ao fim.
Significa aceitar que há etapas que levam mais tempo.
Que há dias em que avançamos muito.
E outros em que avançamos pouco.
Que há momentos em que precisamos de parar.
E que parar também faz parte do caminho.
Aprendi isso com os meus próprios pés.
Mas não foi apenas uma aprendizagem do corpo.
Foi uma aprendizagem para a vida.
Hoje ainda tenho pressa.
Claro que tenho.
Há dias em que volto a querer resolver tudo rapidamente.
Em que quero saber.
Decidir.
Organizar.
Controlar.
Mas agora reconheço essa pressa.
E, algumas vezes, consigo dizer-me:
“Devagar.”
Não precisas de saber tudo hoje.
Não precisas de resolver tudo hoje.
Não precisas de chegar já.
Há coisas que precisam de tempo para amadurecer.
Há respostas que aparecem quando deixamos de as perseguir.
Há caminhos que só conseguimos ver depois de caminhar alguns passos.
E talvez seja isso que mais gosto na palavra “devagar”.
Ela não diz para desistir.
Diz apenas:
não te percas de ti enquanto vais.
Porque de que serve chegar a um lugar se, pelo caminho, deixámos de estar presentes?
De que serve cumprir todas as metas se não conseguimos lembrar-nos de como foi chegar até elas?
Hoje quero aprender a viver assim.
Com menos pressa.
Com mais presença.
Não quero deixar de sonhar.
Não quero deixar de avançar.
Não quero ficar parada por medo.
Quero continuar a caminhar.
Mas quero olhar para os lados.
Quero sentir os pés no chão.
Quero reparar.
Quero ouvir.
Quero respirar.
Quero saber quando é altura de parar.
E quero aceitar que nem tudo precisa de acontecer agora.
Talvez a vida não seja uma corrida até algum lugar.
Talvez seja isto.
Este passo.
Depois outro.
E outro.
Até percebermos que o caminho também era o destino.
Nos Caminhos de Santiago, aprendi a caminhar devagar.
Hoje estou a aprender a viver assim.
Novos textos
Chegou ao fim deste texto?
Se estas palavras lhe fizeram companhia, pode deixar o seu email e receber apenas um aviso quando a Mara publicar um novo texto.
Uau!
Não foi nos caminhos de Santiago mas revi-me muito nessa pressa.
E com isso tomei uma grande decisão. 🙏🏽