Recomeços
As perguntas que ninguém faz
Há perguntas que ouvimos todos os dias.
“Como devo tomar?”
“Posso tomar com este medicamento?”
“Quando é que começo?”
“E se me esquecer de uma dose?”
São perguntas importantes.
Fazem parte da profissão.
Mas, com o tempo, comecei a perceber que existem outras perguntas.
Perguntas que quase ninguém faz.
Talvez porque não saibamos como.
Ou porque temos medo da resposta.
“Vou ficar bem?”
“E se isto não passar?”
“Quem vai cuidar de mim quando eu já não conseguir cuidar de mim?”
“E se os meus filhos já não precisarem de mim?”
“E se eu estiver sozinho quando envelhecer?”
“Será que alguém percebe que eu não estou bem?”
“Posso dizer que tenho medo?”
“Posso simplesmente não conseguir hoje?”
“E se a minha vida não for aquilo que eu imaginei?”
“E se eu tiver passado demasiado tempo a fazer aquilo que os outros esperavam de mim?”
Estas perguntas raramente chegam ao balcão.
Mas talvez estejam lá.
Escondidas por detrás de outras.
Por detrás de uma pessoa que pergunta repetidamente se determinado medicamento é mesmo necessário.
Por detrás de alguém que aparece muitas vezes sem uma razão muito clara.
Por detrás de quem quer conversar.
Por detrás daquele “Dra., posso perguntar-lhe uma coisa?” que começa com uma dúvida sobre um medicamento e termina numa história sobre a vida.
Aprendi que, muitas vezes, a pergunta que fazemos não é a pergunta que realmente queremos fazer.
Perguntamos sobre o comprimido.
Mas queremos saber se vamos ficar bem.
Perguntamos sobre os efeitos secundários.
Mas queremos saber se podemos ter esperança.
Perguntamos quando podemos voltar a fazer determinada coisa.
Mas talvez estejamos a perguntar se a nossa vida vai voltar a ser como era.
E há uma coisa que a profissão me ensinou:
nem todas as perguntas precisam de uma resposta técnica.
Algumas precisam de tempo.
Outras precisam de silêncio.
Algumas precisam de alguém que escute até ao fim.
E há perguntas para as quais talvez nunca encontremos uma resposta definitiva.
Essas são, provavelmente, as perguntas mais difíceis.
Quem sou eu?
O que quero realmente?
O que faço com aquilo que me aconteceu?
Quanto tempo demora a deixar de doer?
Quando é que sei que está na altura de partir?
Como sei que estou no caminho certo?
Talvez tenhamos sido ensinados a procurar respostas demasiado cedo.
A escolher.
A decidir.
A resolver.
A seguir em frente.
Mas há perguntas que precisam de nos acompanhar durante algum tempo.
Não para nos atormentar.
Para nos transformar.
Hoje já não tenho tanta pressa de responder a tudo.
Aprendi que algumas perguntas são como caminhos.
Não existem para nos levar imediatamente a um destino.
Existem para nos fazer caminhar.
E talvez uma das perguntas mais importantes seja também uma das mais simples:
“Como estás?”
Não aquela pergunta que fazemos por educação.
A verdadeira.
Aquela que permite que a resposta seja qualquer uma.
“Estou bem.”
“Estou cansada.”
“Estou perdido.”
“Tenho medo.”
“Não sei.”
“Hoje não consigo.”
Talvez devêssemos fazer mais perguntas assim.
E, sobretudo, aprender a ficar para ouvir as respostas.
Porque há perguntas que ninguém faz.
Mas que, às vezes, alguém passa uma vida inteira à espera que lhe façam.
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