Recomeços
Caminhar sem saber
Há qualquer coisa assustadora em caminhar sem saber.
Sem saber o que vem depois.
Sem saber se estamos a escolher o caminho certo.
Sem saber onde vamos chegar.
Talvez por isso passemos tanto tempo a tentar planear a vida.
Queremos mapas.
Datas.
Certezas.
Garantias.
Queremos saber antes de começar.
Eu também queria.
Durante muito tempo, achei que precisava de saber para onde ia antes de dar o primeiro passo.
No Caminho, percebi que isso é impossível.
Havia sempre um caminho à minha frente.
E eu não conseguia ver tudo.
Via apenas alguns metros.
Depois mais alguns.
E isso tinha de ser suficiente.
Um passo.
Depois outro.
E outro.
Talvez a vida seja muito parecida.
Não conseguimos ver o caminho inteiro.
Podemos fazer planos.
Podemos imaginar.
Podemos preparar.
Mas há sempre uma parte que permanece escondida.
E talvez seja aí que entra a confiança.
Não a certeza de que tudo vai correr bem.
Mas a confiança de que, se alguma coisa mudar, encontraremos uma forma de continuar.
Nos Caminhos, houve momentos em que não sabia se conseguia.
Houve cansaço.
Dor.
Dias em que os quilómetros pareciam mais longos.
Mas continuei.
Não porque soubesse exatamente como chegaria ao fim.
Continuei porque só precisava de pensar no passo seguinte.
Talvez eu tenha passado demasiado tempo a tentar resolver a minha vida inteira de uma vez.
A querer saber o que viria depois.
Qual seria o próximo trabalho.
Qual seria o próximo caminho.
Quem eu seria.
O que faria.
E talvez tenha esquecido que não preciso de saber tudo isso hoje.
Posso apenas caminhar.
Há uma liberdade enorme em admitir:
“Eu não sei.”
Não sei o que vai acontecer.
Não sei onde vou estar daqui a um ano.
Não sei se todas as escolhas que estou a fazer serão as certas.
Mas sei que posso escolher o próximo passo.
E isso chega.
Talvez maturidade seja também isto.
Deixar de exigir certezas à vida.
Aceitar que algumas respostas só aparecem depois de vivermos as perguntas.
Que há decisões que só conseguimos compreender quando já estamos do outro lado.
Que alguns caminhos só se revelam depois de termos coragem de entrar neles.
No Caminho, eu não precisava de ver Santiago a cada momento.
Bastava saber que estava a caminhar na direção certa.
E talvez seja isso que quero levar para a minha vida.
Não preciso de ver o fim.
Preciso apenas de reconhecer o próximo passo.
Hoje ainda tenho medo do que não sei.
Mas já não quero que esse medo decida por mim.
Quero continuar a caminhar.
Mesmo sem mapa completo.
Mesmo sem garantias.
Mesmo sem saber exatamente onde vou chegar.
Porque talvez o mais importante não seja chegar a um lugar específico.
Talvez seja descobrir quem nos tornamos enquanto caminhamos.
E eu ainda estou a descobrir.
Ainda há caminho.
Ainda há coisas que não sei.
Ainda há muito que quero viver.
Por isso, hoje, se me perguntarem para onde vou, talvez a resposta mais honesta seja
não sei.
Mas sei que vou.
E, por agora,
isso basta.
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