Recomeços

Chegar a casa emocionalmente vazia

Mara Cruz 3 min de leitura

Houve dias em que chegava a casa e não queria falar.

Não porque estivesse zangada.

Nem porque tivesse acontecido alguma coisa particularmente grave.

Estava apenas cansada.

Mas não era um cansaço que se resolvesse com uma noite de sono.

Era outro.

Um cansaço que parecia estar por dentro.

Durante o dia, havia sempre alguém.

Alguém que precisava de uma resposta.

De uma explicação.

De atenção.

De paciência.

Alguém que queria contar uma história.

Alguém preocupado.

Alguém assustado.

Alguém que precisava de ser ouvido.

E eu estava lá.

Ouvia.

Respondia.

Ajudava.

Sorria.

Tentava estar presente.

Até que chegava a casa.

E percebia que já não tinha muito mais para oferecer.

Às vezes, perguntavam-me:

“Então, como correu o dia?”

E eu não sabia responder.

Como se tivesse passado o dia inteiro a dar pequenas partes de mim e, ao chegar a casa, já não conseguisse encontrar palavras suficientes para explicar o que tinha acontecido.

Não era apenas cansaço físico.

Era estar emocionalmente cheia e, ao mesmo tempo, vazia.

Cheia das histórias dos outros.

Vazia de mim.

E talvez essa tenha sido uma das coisas que mais demorei a perceber.

Eu achava que descansar era parar de trabalhar.

Mas há dias em que o corpo pára e a cabeça continua.

As conversas continuam.

As preocupações continuam.

As coisas que ficaram por dizer continuam.

As pessoas que precisaram de nós continuam dentro de nós.

E, quando finalmente temos silêncio, tudo aquilo que fomos adiando encontra espaço para aparecer.

Talvez por isso houvessem dias em que eu chegava a casa e precisava simplesmente de silêncio.

Não queria perguntas.

Não queria explicar.

Não queria decidir.

Queria tirar a bata.

E, de alguma forma, tirar também tudo aquilo que tinha carregado durante o dia.

Hoje penso que talvez tenha demorado demasiado tempo a perceber que cuidar dos outros também tem um limite.

Que estar disponível não significa estar sempre disponível.

Que ouvir os outros não pode significar deixar de me ouvir.

E que não sou menos cuidadora por precisar de ser cuidada.

Há uma frase que hoje compreendo de outra maneira:

- não podemos continuar a dar de um lugar que está vazio.

E talvez o problema não seja dar.

Talvez seja esquecer que também precisamos de voltar a nós.

De ter tempo sem função.

De estar sem precisar de resolver nada.

De fazer coisas que não servem para ninguém.

Apenas para nós.

Porque durante muito tempo, talvez eu tenha confundido valor com utilidade.

Como se ser necessária fosse a mesma coisa que ser importante.

Hoje sei que não é.

Eu não preciso de estar sempre a cuidar para merecer descanso.

Não preciso de estar sempre disponível para merecer amor.

Não preciso de produzir, resolver ou ajudar para ter valor.

Posso simplesmente chegar a casa.

Tirar a bata.

Sentar-me.

Respirar.

E não fazer mais nada.

Talvez isso também seja cuidar.

Não dos outros.

De mim.

E talvez tenha sido essa uma das aprendizagens mais difíceis da mulher por detrás da bata:

- também preciso de chegar a casa e encontrar-me lá.

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