Recomeços

Cinco minutos de atenção

Mara Cruz 3 min de leitura

Cinco minutos parecem pouco.

É o tempo que demoramos a beber um café.

A responder a uma mensagem.

A esperar que uma página carregue.

Cinco minutos, no meio de um dia cheio, quase não parecem existir.

Mas aprendi que, para algumas pessoas, cinco minutos podem ser muito.

Aprendi isso numa farmácia.

Havia pessoas que chegavam e começavam a falar.

E eu sabia que, se deixasse, podiam ficar ali durante muito tempo.

Contavam uma história.

Depois outra.

Às vezes voltavam ao princípio.

Falavam dos filhos, da saúde, do marido, da vizinha, de uma consulta, de uma preocupação qualquer.

E, no início, eu pensava:

Ela veio aqui por causa disto?

Hoje percebo que essa não era a pergunta certa.

A pergunta certa era:

Porque precisava ela de alguém que a ouvisse?

Talvez tivesse passado o dia sozinha.

Talvez ninguém lhe tivesse perguntado como estava.

Talvez tivesse uma preocupação que não conseguia tirar da cabeça.

Talvez apenas quisesse conversar com alguém que já conhecia o seu rosto.

E então percebi uma coisa simples:

atenção também é cuidado.

Não é preciso fazer alguma coisa extraordinária.

Às vezes, é apenas pousar por um instante aquilo que estamos a fazer e olhar verdadeiramente para a pessoa que está diante de nós.

Ouvir sem estar já a pensar na resposta.

Não interromper.

Não olhar constantemente para o relógio.

Não fazer sentir ao outro que está a ocupar espaço a mais.

Cinco minutos.

É pouco tempo.

Mas pode ser o suficiente para alguém se sentir visto.

E talvez essa seja uma das necessidades mais profundas que temos.

Ser vistos.

Não pela roupa.

Não pelo cargo.

Não pelo dinheiro.

Não pelo que conseguimos fazer.

Mas simplesmente por aquilo que somos naquele momento.

Cansados.

Assustados.

Tristes.

Confusos.

Ou simplesmente sozinhos.

Também aprendi que nem sempre conseguimos oferecer esses cinco minutos.

Há dias em que o balcão está cheio.

O telefone toca.

Há pessoas à espera.

Temos tarefas para terminar.

E somos humanos.

Não podemos estar sempre disponíveis para todos.

Mas talvez possamos escolher alguns momentos para estar verdadeiramente presentes.

Porque atenção não é apenas tempo.

É presença.

E existe uma diferença enorme entre estar cinco minutos com alguém e dar cinco minutos a alguém.

Hoje penso muitas vezes nas pessoas que ficaram à minha frente durante aqueles pequenos intervalos.

Talvez eu não me lembre de tudo o que me contaram.

Talvez elas também não se lembrem exatamente do que lhes respondi.

Mas talvez se lembrem de outra coisa.

De terem sido ouvidas.

De alguém não ter tido pressa.

De terem sentido, por cinco minutos, que a sua história importava.

E talvez seja isso que fazemos uns pelos outros sem perceber.

Não mudamos a vida de alguém.

Não resolvemos os seus problemas.

Não encontramos o medicamento certo para todas as dores.

Às vezes, apenas oferecemos cinco minutos.

E, naquele momento, cinco minutos podem ser tudo.

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