Recomeços

Cuidar para além da medicação

Mara Cruz 3 min de leitura

Quando comecei a trabalhar numa farmácia, achava que cuidar era, sobretudo, saber.

Saber qual o medicamento.

Qual a dose.

Como tomar.

O que não combinar.

O que explicar.

Aprender.

Estudar.

Estar atenta.

E tudo isso é cuidar.

Mas não é tudo.

Demorei algum tempo a perceber que, muitas vezes, aquilo que uma pessoa precisava não estava dentro da caixa que levava para casa.

Havia quem chegasse preocupado.

Quem tivesse acabado de receber um diagnóstico.

Quem estivesse assustado com um sintoma.

Quem não soubesse como lidar com aquilo que lhe estava a acontecer.

E havia quem simplesmente precisasse que alguém tivesse tempo.

Aprendi que cuidar também é olhar.

É perceber quando alguém está diferente.

Quando uma pessoa que habitualmente sorri chega calada.

Quando alguém repete a mesma pergunta porque, na verdade, ainda não conseguiu assimilar a resposta.

Quando alguém diz “não é nada” e percebemos que é alguma coisa.

Cuidar é explicar sem fazer o outro sentir-se ignorante.

É repetir quando é preciso.

É não demonstrar impaciência.

É perceber que nem todas as pessoas têm o mesmo conhecimento, a mesma capacidade de compreensão ou a mesma facilidade em pedir ajuda.

Cuidar também é respeitar.

Respeitar o medo.

A vergonha.

A fragilidade.

A idade.

A solidão.

As escolhas de cada pessoa.

E perceber que não precisamos de concordar com tudo para tratar alguém com dignidade.

Aprendi que há pessoas que precisam de informação.

Outras precisam de tranquilidade.

Outras precisam de alguém que as ajude a organizar aquilo que ouviram numa consulta.

E algumas precisam apenas de ouvir:

“Vamos com calma.”

Talvez cuidar seja também isso.

Não acrescentar ansiedade a quem já está assustado.

Não transformar uma dúvida numa ameaça.

Não fazer alguém sentir que está a incomodar.

Porque há uma diferença entre atender alguém e cuidar de alguém.

Atender pode ser cumprir uma tarefa.

Cuidar exige presença.

E talvez tenha sido esta uma das maiores aprendizagens que a profissão me deu:

não tratamos apenas doenças.

Estamos diante de pessoas.

Pessoas que têm histórias, relações, medos, famílias, perdas, esperanças e dias bons e maus.

Uma pessoa não deixa tudo isso à porta quando entra numa farmácia.

Entra inteira.

Mesmo quando pede apenas uma caixa de medicamentos.

E talvez seja por isso que, depois de tantos anos, já não consigo olhar para uma receita apenas como uma receita.

Vejo alguém.

Alguém que está a tentar cuidar de si.

Ou de alguém que ama.

Alguém que talvez esteja assustado.

Alguém que talvez não saiba o que fazer a seguir.

E, nesse momento, aquilo que posso oferecer vai muito para além da medicação.

Posso oferecer conhecimento.

Mas também posso oferecer calma.

Posso explicar.

Mas também posso ouvir.

Posso dispensar um medicamento.

Mas também posso dispensar um pouco de atenção.

E talvez cuidar seja precisamente isto:

fazer tudo o que está ao nosso alcance para que, durante alguns minutos, a pessoa que está diante de nós se sinta um pouco menos sozinha.

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