Recomeços

Deixar também é coragem

Mara Cruz 2 min de leitura

Durante muito tempo, pensei que ser forte era aguentar.

Ficar.

Continuar.

Suportar mais um pouco.

Não desistir.

Como se a força estivesse sempre na capacidade de carregar.

O Caminho ensinou-me outra coisa.

Ensinou-me que, às vezes, é preciso ser muito mais forte para deixar.

Deixar uma coisa que já não nos faz bem.

Deixar uma expectativa.

Uma culpa.

Uma relação.

Uma versão de nós.

Uma ideia sobre quem deveríamos ser.

Deixar aquilo que já não tem lugar em nós.

E isso não faz de mim uma pessoa mais fraca.

Pelo contrário.

É preciso coragem para olhar para alguma coisa que fez parte de nós e reconhecer:

“Já não quero levar isto comigo.”

Não porque não tenha sido importante.

Não porque não tenha significado nada.

Mas porque algumas coisas cumprem o seu tempo.

E depois chega o momento de as deixar.

No Caminho, percebi que não podemos continuar a caminhar se insistirmos em carregar tudo.

A mochila torna-se pesada.

O corpo começa a pedir.

Os passos tornam-se diferentes.

E chega uma altura em que temos de escolher.

O que fica?

O que vai?

O que ainda faz sentido?

O que já não cabe na mulher que estou a tornar-me?

Talvez a vida seja também uma sucessão destas escolhas.

E talvez eu tenha passado demasiado tempo a pensar que deixar era perder.

Hoje penso diferente.

Deixar pode ser respeitar.

Respeitar aquilo que fomos.

Respeitar aquilo que vivemos.

Respeitar aquilo que sentimos.

E, acima de tudo, respeitar aquilo em que nos estamos a transformar.

Não quero levar comigo tudo aquilo que um dia fui.

Quero levar aquilo que ainda me representa.

As pessoas que amo.

As memórias que me fazem sorrir.

As aprendizagens.

A ternura.

A coragem.

A capacidade de cuidar.

Mas quero deixar a culpa que não é minha.

O medo de desiludir.

A necessidade de agradar.

A obrigação de ser forte o tempo inteiro.

E tudo aquilo que me obriga a ser alguém que já não sou.

Hoje sei que deixar não é desistir.

É escolher.

E escolher também é uma forma de coragem.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas que trouxe dos Caminhos:

a certeza de que não preciso de carregar tudo para provar que sou forte.

Às vezes, a verdadeira força está precisamente em pousar a mochila.

Abrir.

Olhar para dentro.

E ter coragem de dizer:

“Isto já não tem lugar em mim.”

E deixar ficar.

Pelo caminho.

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