Reflexões
Já não estou naquele lugar
Hoje reencontrei alguém que pertence a uma parte da minha vida que, durante muito tempo, preferi deixar para trás.
Uma pessoa com quem tive uma boa relação, mas que ficou associada a uma fase em que me perdi profundamente. Quando saí daquele lugar, saí em pedaços. E durante muito tempo pensei que voltar a algumas memórias seria voltar também à dor.
Por isso, quando ela me procurou, tive medo.
Pensei que aquela conversa pudesse abrir feridas que eu julgava fechadas.
Mas aconteceu o contrário.
Foi leve.
Ouvi as suas mágoas. Os seus medos. As coisas que hoje lhe doem. Ri com ela. Emocionei-me com ela.
E, quando senti que devia falar, falei.
Não para lhe mostrar que eu já tinha passado por aquilo. Não para lhe dar respostas. Não para lhe dizer que sabia exatamente como ela se sentia.
Apenas para lhe deixar, nas entrelinhas, uma pequena certeza que talvez hoje ela ainda não consiga sentir
a noite não dura para sempre.
Há momentos em que o sofrimento parece eterno. Em que não conseguimos imaginar quem seremos depois dele. Mas há um dia que começa a nascer mesmo quando ainda estamos dentro da escuridão.
E eu queria que ela soubesse disso.
Talvez tenha sido isso que mais me tocou nesta conversa, perceber que eu podia estar ali para alguém sem me perder.
Pude voltar a uma história que um dia me magoou profundamente e, desta vez, não senti vontade de fugir.
Senti-me inteira.
E saí de lá leve.
Leve por ela.
Leve por mim.
Leve porque percebi que já não estou naquele lugar.
Talvez esta seja uma das formas mais silenciosas de cura
voltar a tocar numa memória que um dia doeu e descobrir que ela já não tem o mesmo poder sobre nós.
E hoje sinto orgulho de mim.
Não porque tenha conseguido dizer a coisa certa.
Mas porque consegui simplesmente estar.
Dar uma palavra quando era preciso.
Um abraço quando não havia palavras.
Um pouco de esperança quando ela talvez não conseguisse encontrá-la sozinha.
E talvez seja isto que quero levar comigo
não preciso de esquecer aquilo que me aconteceu para saber que já não sou aquela mulher.
Posso lembrar-me.
Posso até emocionar-me.
Mas já não estou lá.
Estou aqui.
E estou em paz.
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Conversas com calma
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