Recomeços
Lágrimas escondidas
Há lágrimas que nunca chegam a cair.
Aprendi isso atrás de um balcão.
As pessoas entram, dizem bom dia, entregam uma receita, fazem uma pergunta.
E nós vemos apenas aquilo que está à nossa frente.
Um rosto.
Uma voz.
Um pedido.
Mas, com o tempo, comecei a perceber que havia pessoas que chegavam com os olhos cansados de chorar, mesmo quando não havia uma única lágrima.
Aprendi a reconhecer alguns sinais.
Aquela pausa antes de responder.
Um olhar que foge.
Uma voz ligeiramente diferente.
Um sorriso que aparece depressa demais.
A pessoa que diz “está tudo bem” sem que ninguém tenha perguntado.
Talvez porque nem sempre queremos que percebam.
Há dias em que conseguimos entrar num lugar, fazer o que temos de fazer e continuar a funcionar.
Mesmo quando, por dentro, estamos a desfazer-nos.
Aprendi que há pessoas que sabem muito bem esconder as suas lágrimas.
E talvez algumas tenham aprendido isso demasiado cedo.
Aprenderam a não incomodar.
A não pedir.
A não mostrar fragilidade.
A dizer “não é nada” quando é alguma coisa.
A continuar.
Sempre a continuar.
E há qualquer coisa de profundamente humano nisso.
Porque todos nós, em algum momento, já escondemos alguma coisa.
Uma tristeza.
Um medo.
Uma preocupação.
Uma noite mal dormida.
Uma conversa que nos deixou em pedaços.
Uma notícia que ainda não conseguimos aceitar.
Entramos no trabalho.
Respondemos a mensagens.
Fazemos compras.
Sorrimos.
E ninguém sabe.
Foi talvez uma das coisas mais importantes que a profissão me ensinou,
Não confundir aparência com verdade.
Uma pessoa pode estar bem vestida e estar em sofrimento.
Pode sorrir e estar triste.
Pode falar muito e sentir-se profundamente sozinha.
Pode parecer segura e estar cheia de medo.
Pode dizer que está tudo bem e estar apenas a tentar chegar ao fim daquele dia.
E talvez seja por isso que hoje tento ter mais cuidado com a forma como olho para os outros.
Não porque consiga saber o que sentem.
Não consigo.
Mas porque aprendi que não sei.
E essa diferença é enorme.
Talvez a verdadeira empatia não seja conseguir perceber exatamente aquilo que o outro está a viver.
Talvez seja aceitar que existe uma parte da sua história à qual nunca teremos acesso.
E, ainda assim, escolher ser gentis.
Porque podemos não conseguir ver as lágrimas escondidas.
Mas podemos escolher não acrescentar peso a quem já carrega demasiado.
Podemos falar mais baixo.
Ter mais paciência.
Ouvir mais um pouco.
Não julgar tão depressa.
E, às vezes, perguntar simplesmente
“Está tudo bem?”
Mesmo sabendo que provavelmente ouviremos:
“Está.”
Porque talvez, naquele momento, o mais importante não seja a resposta.
É a pessoa perceber que alguém reparou.
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