Recomeços

O lugar onde me reencontrei

Mara Cruz 3 min de leitura

Não fui para os Caminhos de Santiago à procura de mim.

Pelo menos, não conscientemente.

Fui caminhar.

Levei uma mochila às costas, algumas coisas de que achei que precisava e uma ideia muito vaga daquilo que aqueles dias seriam.

Mas levei comigo muito mais do que aquilo que cabia numa mochila.

Levei perguntas.

Cansaço.

Pensamentos.

Coisas que ainda não sabia nomear.

E levei uma mulher que estava habituada a estar para os outros e que, talvez sem perceber, estava há algum tempo a afastar-se de si.

Nos Caminhos, alguma coisa mudou.

Não aconteceu de repente.

Não houve uma manhã em que acordei transformada.

Foi acontecendo passo a passo.

Literalmente.

À medida que caminhava, comecei a perceber o quanto tempo passava sem estar verdadeiramente comigo.

Ali não havia tanto para fazer.

Não havia necessidade de responder imediatamente.

Não havia tantas decisões.

Não havia a urgência habitual.

Havia caminho.

E eu.

Havia dias em que caminhava em silêncio.

Dias em que falava.

Dias em que me ria.

Dias em que me doía o corpo.

Dias em que queria chegar.

E dias em que percebia que, afinal, não tinha pressa nenhuma.

Comecei a reparar em coisas que normalmente me escapavam.

No som dos meus passos.

Na respiração.

No vento.

Na paisagem.

Nas pessoas que passavam por mim.

No meu próprio pensamento.

E comecei a perceber que estar comigo não era necessariamente estar em paz o tempo inteiro.

Às vezes era estar cansada.

Era ter medo.

Era sentir saudades.

Era ficar irritada.

Era querer desistir.

Era não saber.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu estava lá para sentir tudo isso.

Sem fugir imediatamente.

Sem tentar resolver.

Sem me distrair.

Talvez tenha sido isso que os Caminhos me deram,

tempo para me ouvir.

E, quando temos tempo suficiente para nos ouvir, algumas verdades começam a aparecer.

Percebi aquilo de que sentia falta.

Aquilo que já não queria.

Aquilo que tinha deixado de fazer sentido.

Aquilo que ainda desejava.

E percebi também que algumas respostas não estavam à minha espera no fim do Caminho.

Estavam a aparecer enquanto eu caminhava.

Talvez porque algumas coisas só conseguimos compreender quando deixamos de estar constantemente a tentar chegar.

Nos Caminhos, aprendi a estar.

A estar cansada.

A estar em silêncio.

A estar comigo.

E talvez tenha sido esse o maior presente.

Durante aqueles dias, não fui apenas mãe.

Não fui profissional.

Não fui mulher de ninguém.

Não fui aquela que tinha de resolver.

Não fui aquela que precisava de saber.

Fui apenas eu.

Uma mulher com uma mochila às costas.

A caminhar.

E isso parece tão simples.

Mas, para mim, foi profundamente transformador.

Porque descobri que gostava da minha companhia.

Que conseguia ficar comigo sem precisar de preencher todos os espaços.

Que havia coisas dentro de mim que eu ainda queria conhecer.

E que talvez eu não estivesse perdida.

Talvez estivesse apenas demasiado longe de mim.

Quando terminei os Caminhos, trouxe algumas coisas na mochila.

Mas trouxe outras comigo que não cabiam lá dentro.

Uma espécie de silêncio novo.

Uma atenção diferente.

Uma vontade maior de viver com presença.

E uma certeza que ainda hoje me acompanha:

eu precisava daquele encontro comigo.

Não sei se os Caminhos me mudaram.

Talvez tenham apenas criado espaço para que eu pudesse finalmente ouvir a mudança que já estava a acontecer dentro de mim.

Talvez não tenha sido o Caminho que me mostrou quem eu era.

Talvez tenha sido o silêncio do Caminho que me permitiu perceber.

Hoje, quando penso nesses dias, não penso apenas nos quilómetros.

Penso na mulher que caminhou.

E tenho a sensação de que, enquanto percorria aqueles caminhos até Santiago, estava também a percorrer outro.

Um caminho de volta.

A mim.

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