Recomeços
O medicamento que nunca existirá
Durante anos, trabalhei rodeada de medicamentos.
Conheci nomes difíceis, princípios ativos, doses, interações, efeitos secundários.
Aprendi para que servia cada um.
Aprendi o que podia aliviar uma dor, controlar um sintoma, tratar uma doença.
Mas há um medicamento que nunca existirá.
E talvez seja aquele que mais pessoas procuram.
Não está numa prateleira.
Não precisa de receita.
Não tem posologia.
Não tem contra-indicações.
E, por mais que procuremos, ninguém o conseguirá fabricar.
É o medicamento para aquilo que dói por dentro.
Para a solidão.
Para a saudade.
Para o medo de perder alguém.
Para aquilo que não conseguimos esquecer.
Para as palavras que ficaram por dizer.
Para a sensação de não sermos suficientes.
Para o vazio que aparece mesmo quando, aparentemente, temos tudo.
Quantas vezes alguém entrou numa farmácia à procura de alguma coisa que aliviasse um mal-estar e eu percebi que o que doía não estava exatamente no corpo?
Podíamos procurar uma solução.
Podíamos sugerir alguma coisa.
Podíamos tentar aliviar.
Mas haviam dores que não cabiam numa caixa.
E talvez essa tenha sido uma das maiores lições que a profissão me ensinou
-Nem tudo o que dói precisa de um medicamento.
Algumas dores precisam de tempo.
Outras precisam de descanso.
Algumas precisam de uma conversa.
Outras de um abraço.
Há dores que precisam de ser choradas.
E há outras que precisam simplesmente de ser aceites.
Aprendi também que queremos resolver demasiado depressa aquilo que sentimos.
Queremos deixar de estar tristes.
Deixar de ter medo.
Deixar de sentir saudades.
Queremos voltar rapidamente à versão de nós que existia antes de alguma coisa acontecer.
Como se sentir fosse uma doença que precisasse de tratamento.
Mas nem sempre é.
Às vezes, sentir é apenas ser humano.
E talvez por isso o medicamento que nunca existirá seja, paradoxalmente, aquele de que mais precisamos aprender a prescindir.
Porque há coisas que não precisam de ser curadas.
Precisam de ser vividas.
Precisam de tempo.
Precisam de espaço.
Precisam de ser compreendidas.
E talvez, algumas vezes, precisem apenas de alguém que nos diga:
“Eu não consigo tirar-te essa dor. Mas posso ficar aqui contigo enquanto ela passa.”
Depois de tantos anos atrás de um balcão, aprendi que essa também é uma forma de cuidar.
Talvez uma das mais importantes.
Porque podemos não conseguir encontrar um medicamento para tudo.
Mas podemos sempre tentar não deixar ninguém sozinho com aquilo que dói.
Novos textos
Chegou ao fim deste texto?
Se estas palavras lhe fizeram companhia, pode deixar o seu email e receber apenas um aviso quando a Mara publicar um novo texto.
Minha Querida 🌺
Como diz o nosso Mestre… “a dor é o início da cura”!
É bem verdade, quando olhamos para trás e vemos o caminho que fomos fazendo percebemos que vale a pena.
No entanto a maioria das pessoas, prefere não olhar para dentro… é muito mais fácil procurar uma causa externa e um medicamento que tira a dor física e nos dá um alívio imediato para os sintomas…
É doloroso, é desconfortável olharmos para dentro e dedicarmos nos a nós mesmos… mas uma coisa é certa… aí sim está o “medicamento” que tanta gente precisa e não encontra…
Não se trata de perder a nossa essência, trata te sim de sermos conscientes da realidade que nos assombra, aceitar, desapegar, escolher viver livre…
E é tão bom quando podemos fazer tudo isto junto de alguém, de mão dada, lado a lado, sem julgamentos, com compaixão, com união, com empatia!
Beijinho ❤️🌺
🙏🙌🙏