Recomeços

O medo

Mara Cruz 3 min de leitura

O medo entra muitas vezes numa farmácia disfarçado de pergunta.

“É grave?”

“Vou ficar bem?”

“Posso tomar isto?”

“E se não resultar?”

“E se for alguma coisa má?”

Durante anos ouvi perguntas assim.

Algumas eram sobre medicamentos.

Outras eram sobre a vida.

Aprendi que, muitas vezes, uma pessoa não está verdadeiramente à procura de uma resposta.

Está à procura de alguém que lhe diga que vai ficar tudo bem.

E nós nem sempre podemos dizer isso.

Porque a verdade é que não sabemos.

Não sabemos o que vai acontecer amanhã.

Não sabemos como o corpo vai reagir.

Não sabemos o resultado daquele exame.

Não sabemos quanto tempo teremos determinadas pessoas connosco.

Talvez seja isso que torna o medo tão difícil.

Ele nasce, muitas vezes, daquilo que não podemos controlar.

E o ser humano gosta de ter certezas.

Quer saber.

Quer prever.

Quer preparar-se.

Quer sentir que tem alguma coisa nas mãos.

Mas há coisas que simplesmente não conseguimos controlar.

Vi medo em pessoas muito diferentes.

No jovem que acabava de receber uma notícia inesperada.

Na mãe preocupada com o filho.

Na pessoa mais velha que chegava sozinha.

Naquele que fazia perguntas atrás de perguntas porque precisava de ter a sensação de que estava preparado.

E percebi que o medo não escolhe idade.

Nem profissão.

Nem estatuto.

Nem personalidade.

Todos temos alguma coisa que nos assusta.

Só mudam os nomes.

E talvez também mudem as formas de esconder.

Há quem fale muito.

Há quem faça piadas.

Há quem se informe obsessivamente.

Há quem finja indiferença.

Há quem diga “não estou preocupado” enquanto aperta as mãos debaixo do balcão.

Aprendi a não achar que alguém é fraco por ter medo.

Ter medo não é falta de coragem.

Talvez seja precisamente o contrário.

Coragem não é não sentir medo.

É continuar mesmo quando ele está presente.

E esta foi uma aprendizagem que também precisei de fazer comigo.

Porque, durante muito tempo, achei que precisava de ter certezas para avançar.

Que primeiro tinha de saber que ia correr bem.

Depois podia dar o passo.

Hoje percebo que a vida raramente funciona assim.

Às vezes damos o passo sem garantias.

Mudamos sem saber exatamente para onde vamos.

Fechamos portas sem conhecer ainda a próxima.

Deixamos para trás aquilo que conhecemos e entramos num lugar onde ainda não sabemos quem seremos.

E temos medo.

Claro que temos.

Talvez amadurecer não seja deixar de ter medo.

Talvez seja aprender a não entregar ao medo o comando da nossa vida.

Porque o medo pode vir connosco.

Pode sentar-se ao nosso lado.

Pode fazer perguntas.

Pode até fazer-nos parar durante algum tempo.

Mas não precisa de decidir por nós.

Hoje, quando penso nas pessoas que passaram pela minha vida profissional, penso que talvez muitas delas não precisassem que eu lhes tirasse o medo.

Precisavam apenas de alguém que não tivesse medo do medo delas.

Alguém que não dissesse “não pense nisso”.

Alguém que não diminuísse aquilo que estavam a sentir.

Alguém que simplesmente dissesse:

“Eu percebo que esteja com medo.”

Às vezes, ser acolhido no medo já é uma pequena forma de coragem.

E talvez seja isso que todos procuramos, de vez em quando:

não alguém que nos prometa que nada de mal vai acontecer,

mas alguém que nos faça sentir que, aconteça o que acontecer, não estaremos completamente sozinhos.

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