Recomeços
O peso do silêncio
Aprendi que o silêncio também fala.
Às vezes, mais alto do que qualquer palavra.
Há silêncios leves, daqueles que não incomodam.
E há outros que parecem ocupar uma sala inteira.
Comecei a reparar neles atrás do balcão.
Na pessoa que chegava e, ao contrário do habitual, não dizia quase nada.
No olhar perdido enquanto esperava.
Na resposta curta.
Na receita pousada devagar sobre o balcão.
Naquele segundo a mais antes de dizer “obrigada”.
No início, talvez eu não reparasse.
Estava demasiado concentrada no que tinha de fazer.
Atender.
Explicar.
Dispensar.
Passar à pessoa seguinte.
Mas trabalhar com pessoas ensinou-me a desacelerar o olhar.
A perceber que nem tudo o que precisamos de saber vem acompanhado de palavras.
Há quem fique em silêncio porque não sabe como explicar o que sente.
Há quem se cale porque tem medo de incomodar.
Há quem não diga nada porque, depois de muito tempo a falar e não se sentir ouvido, acaba por desistir.
E há quem fique em silêncio porque algumas dores são tão grandes que ainda não encontraram palavras para existir.
Talvez seja esse um dos pesos mais difíceis:
ter alguma coisa dentro de nós e não saber onde a colocar.
Às vezes, o silêncio é uma escolha.
Outras vezes, é aquilo que sobra quando já dissemos tudo.
E há silêncios que são pedidos de ajuda disfarçados.
Mas nós nem sempre sabemos reconhecê-los.
Nem sempre temos tempo.
Nem sempre temos disponibilidade.
Nem sempre somos nós a pessoa certa.
E está tudo bem.
Não podemos salvar toda a gente.
Aprendi isso também.
Cuidar não é resolver.
Não é retirar ao outro aquilo que lhe dói.
Às vezes, cuidar é apenas não obrigar alguém a fingir que está bem.
É deixar um espaço.
Uma pausa.
Um pouco de silêncio.
Sem o preencher imediatamente com conselhos, perguntas ou frases feitas.
Porque há silêncios que não precisam de ser quebrados.
Precisam de ser acompanhados.
Talvez seja essa a diferença entre ouvir palavras e verdadeiramente escutar alguém.
Escutar é perceber aquilo que foi dito.
Mas também aquilo que ficou por dizer.
Hoje, quando alguém se cala diante de mim, tento não ter tanta pressa em preencher o espaço.
Aprendi que nem todos os silêncios são vazios.
Alguns estão cheios de coisas que ainda não conseguimos dizer.
E talvez, por vezes, a maior forma de cuidado seja simplesmente permanecer.
Sem perguntas.
Sem respostas.
Sem tentar consertar.
Apenas permanecer.
Porque há momentos em que uma pessoa não precisa que lhe digam nada.
Precisa apenas de não estar sozinha no seu silêncio.
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