Recomeços
A mulher que ninguém via
Havia uma mulher que quase ninguém conhecia.
As pessoas conheciam a profissional.
A mulher atrás do balcão.
Aquela que atendia.
Que ouvia.
Que explicava.
Que procurava soluções.
Que sabia o que fazer.
Era essa mulher que os outros viam.
E eu também me habituei a ser ela.
Talvez demasiado.
Porque, enquanto cuidava daquilo que estava à minha frente, quase ninguém percebia o que acontecia por detrás.
Havia dias em que sorria sem me sentir feliz.
Dias em que dizia “está tudo bem” porque não tinha tempo para explicar que não estava.
Dias em que chegava ao trabalho cansada antes mesmo de começar.
E ninguém precisava de saber.
Eu sabia continuar.
Sempre soube.
Talvez essa tenha sido uma das coisas que melhor aprendi:
continuar mesmo quando alguma coisa dentro de mim pedia para parar.
A mulher que ninguém via também tinha dúvidas.
Tinha medo.
Tinha dias em que não sabia se estava no lugar certo.
Tinha vontade de desaparecer por algumas horas, não por querer fugir da vida, mas por precisar de um espaço onde ninguém lhe pedisse nada.
Tinha coisas que levava para casa.
Conversas.
Olhares.
Palavras.
Silêncios.
E havia dias em que deixava a bata no trabalho, mas não conseguia deixar tudo o resto.
Voltava para casa e continuava a ser aquela que cuidava.
Da casa.
Das filhas.
Dos outros.
E, por vezes, chegava ao fim do dia sem saber onde tinha ficado.
Eu.
Talvez ninguém percebesse.
Porque eu também não falava muito sobre isso.
Aprendi a funcionar.
E funcionar pode parecer, por fora, muito parecido com estar bem.
Mas não é.
Podemos cumprir tudo e, ainda assim, sentir que alguma coisa dentro de nós está a desaparecer.
Podemos ser fortes e estar cansadas.
Podemos amar a nossa vida e, ainda assim, desejar uma mudança.
Podemos agradecer aquilo que temos e reconhecer que já não estamos bem onde estamos.
Durante muito tempo, achei que precisava de uma razão suficientemente grande para justificar aquilo que sentia.
Como se só pudesse estar cansada se tivesse acontecido alguma coisa grave.
Como se só pudesse querer sair se tivesse uma história perfeita para contar.
Como se só pudesse dizer “não consigo mais” depois de ter chegado ao limite.
Hoje penso diferente.
Nem sempre precisamos de chegar ao limite para podermos escolher.
Nem sempre precisamos que alguém veja o nosso cansaço para ele ser real.
Nem sempre precisamos de uma explicação que faça sentido para todos.
A mulher que ninguém via começou, aos poucos, a tornar-se visível para mim.
Comecei a reparar nela.
A ouvi-la.
A perceber quando estava cansada.
Quando estava triste.
Quando estava irritada.
Quando alguma coisa já não fazia sentido.
E percebi que talvez o maior abandono não tivesse vindo dos outros.
Talvez tivesse vindo de mim.
Eu tinha passado tanto tempo a cuidar de tudo à minha volta que me tinha tornado especialista em não reparar em mim.
Foi preciso parar.
E olhar.
Sem a bata.
Sem o papel de profissional.
Sem a obrigação de parecer bem.
Sem precisar de ser forte.
E ali estava ela.
A mulher que ninguém via.
A mulher que tinha medo.
A mulher que estava cansada.
A mulher que queria mais da vida.
A mulher que precisava de respirar.
A mulher que ainda tinha sonhos.
E que, apesar de tudo, ainda estava ali.
Talvez eu não precisasse de me tornar outra pessoa.
Precisava apenas de deixar de esconder aquela que já era.
Hoje, quando penso nessa mulher, não sinto pena.
Sinto ternura.
E uma enorme vontade de lhe dizer:
Eu vejo-te.
E desta vez,
Não vou passar por ti sem parar.
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