Recomeços
O que aprendi sobre o ser humano
Pessoas que ficaram
Depois de tantos anos a ouvir pessoas, comecei a perceber que o ser humano é muito mais complexo do que aquilo que mostra.
Aprendi que nem sempre aquilo que dizemos é aquilo que sentimos.
Que, por vezes, a irritação é medo.
Que a impaciência pode ser cansaço.
Que a exigência pode esconder insegurança.
E que, por detrás de uma pessoa que parece difícil, pode existir simplesmente alguém que já está cansado de não ser compreendido.
Aprendi que há pessoas que falam muito porque têm medo do silêncio.
E outras que se calam porque já aprenderam que ninguém as ouve.
Aprendi que a solidão não tem necessariamente o rosto de alguém sozinho.
Há pessoas rodeadas de gente que estão profundamente sós.
E há pessoas que vivem sozinhas e que, ainda assim, conseguem encontrar pequenas formas de se sentirem acompanhadas.
Aprendi que quase toda a gente tem alguma coisa que não conta.
Uma preocupação.
Uma perda.
Um medo.
Uma culpa.
Uma história que ficou por resolver.
E que, muitas vezes, aquilo que vemos é apenas uma pequena parte do que alguém está a viver.
Aprendi também que não devemos ter demasiada pressa em julgar.
Porque nunca sabemos o que aconteceu antes de aquela pessoa chegar até nós.
Não sabemos como foi a noite.
Que telefonema recebeu.
Que diagnóstico ouviu.
Que medo trouxe de casa.
Que batalha está a travar em silêncio.
Aprendi que as pessoas querem ser vistas.
Não apenas atendidas.
Querem que alguém se lembre do seu nome.
Que reconheça o seu rosto.
Que pergunte como está.
Que repare quando alguma coisa mudou.
Talvez uma das necessidades mais profundas do ser humano seja esta:
sentir que importa.
Aprendi que todos precisamos de alguém que nos escute sem tentar imediatamente resolver-nos.
Porque nem tudo precisa de uma solução.
Às vezes precisamos apenas de espaço para dizer em voz alta aquilo que carregamos por dentro.
Aprendi que somos contraditórios.
Podemos ser generosos num dia e egoístas no seguinte.
Podemos amar profundamente e, ainda assim, magoar.
Podemos ter boas intenções e fazer coisas que ferem.
Podemos querer ser melhores e continuar a repetir os mesmos erros.
E talvez isso também seja ser humano.
Aprendi que as pessoas são capazes de uma enorme dureza.
Mas também de uma enorme ternura.
Que podem surpreender-nos nos dois sentidos.
E que, muitas vezes, as pequenas coisas dizem mais sobre alguém do que os grandes gestos.
Um sorriso.
Uma palavra.
Um “obrigada”.
Um “como está?”
Um cuidado que ninguém pediu.
Aprendi, sobretudo, que não somos apenas aquilo que fazemos.
Somos aquilo que sentimos.
Aquilo que tememos.
Aquilo que perdemos.
Aquilo que desejamos.
Aquilo que tentamos esconder.
E aquilo que, apesar de tudo, continuamos a escolher.
Talvez tenha sido essa a maior aprendizagem que as pessoas me deram
ninguém é apenas aquilo que vemos.
Por detrás de cada rosto existe uma história que desconhecemos.
E talvez por isso devêssemos andar pela vida com um pouco mais de delicadeza.
Não sabemos o peso que o outro está a carregar.
Não sabemos quem precisa desesperadamente de cinco minutos de atenção.
Não sabemos quem está a sorrir para não chorar.
Não sabemos quem está a tentar recomeçar.
E, talvez, também não saibamos quem está a precisar de nós.
Por isso hoje tento lembrar-me
antes de julgar, olhar.
Antes de responder, ouvir.
Antes de presumir, perguntar.
E, sempre que puder, tratar o outro como aquilo que ele é antes de tudo
um ser humano a tentar fazer o melhor que consegue com aquilo que tem.
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