Recomeços
O que ganhei
Depois de escrever sobre aquilo que perdi, fiquei a pensar no que ganhei.
Não é uma pergunta tão fácil quanto parece.
Estamos habituados a fazer contas às perdas.
Ao que acabou.
Ao que não aconteceu.
Ao que ficou para trás.
Mas raramente paramos para perguntar:
o que ficou comigo?
Ganhei pessoas.
Algumas ficaram durante anos.
Outras passaram apenas alguns minutos pela minha vida.
Algumas talvez nem saibam que ainda vivem na minha memória.
Ganhei histórias que não eram minhas, mas que, de alguma maneira, passaram a fazer parte de mim.
Ganhei a capacidade de ouvir.
E descobri que ouvir verdadeiramente é muito diferente de simplesmente escutar.
Ganhei paciência.
Ou, pelo menos, aprendi a perceber que nem tudo precisa de uma resposta imediata.
Ganhei a consciência de que cada pessoa carrega qualquer coisa que não vemos.
E isso tornou-me mais cuidadosa com os meus julgamentos.
Ganhei uma espécie de delicadeza.
Não aquela delicadeza frágil.
Mas a capacidade de perceber que uma palavra pode pesar muito quando alguém já está cansado.
Ganhei a certeza de que cuidar não é apenas resolver.
É estar.
É reparar.
É perguntar.
É esperar.
É saber quando falar e quando ficar em silêncio.
Ganhei também algumas feridas.
E não sei se gosto de chamar-lhes ganhos.
Mas talvez algumas delas tenham trazido coisas que eu não teria aprendido de outra forma.
Ensinaram-me limites.
Ensinaram-me a reconhecer aquilo que me faz mal.
Ensinaram-me que não preciso de permanecer em todos os lugares onde um dia consegui estar.
Ganhei coragem.
Não a coragem de quem não tem medo.
A outra.
A que aparece quando temos medo e, mesmo assim, damos um passo.
Ganhei a capacidade de dizer não.
E descobri que um “não” não precisa de ser acompanhado por uma longa explicação.
Ganhei espaço.
Quando comecei a deixar algumas coisas para trás, percebi que o espaço vazio nem sempre é vazio.
Às vezes é simplesmente espaço para respirar.
Ganhei tempo comigo.
E talvez este seja um dos ganhos que mais valorizo agora.
Comecei a descobrir que posso estar comigo sem precisar de estar sempre ocupada.
Que posso não ter uma resposta.
Que posso parar.
Que posso simplesmente existir sem estar a cumprir uma função.
Ganhei perguntas.
Muitas.
Sobre quem sou.
Sobre o que quero.
Sobre onde quero estar.
Sobre o que já não aceito.
E, curiosamente, já não me assusta tanto não ter respostas.
Talvez porque percebi que algumas perguntas não aparecem para serem respondidas imediatamente.
Aparecem para nos fazer crescer.
Ganhei uma mulher que ainda não conheço completamente.
Eu.
E talvez esta seja a coisa mais bonita que ganhei.
Não uma versão perfeita.
Não uma mulher que sabe sempre o que fazer.
Uma mulher que ainda duvida.
Que ainda tem medo.
Que ainda se perde.
Mas que começou a ouvir-se.
E que já não quer passar a vida inteira a tentar ser aquilo que esperam dela.
Quando penso no que ganhei, percebo que não são coisas que possa guardar numa gaveta.
Não são objetos.
Não são títulos.
Não são números.
São pessoas.
Memórias.
Aprendizagens.
Limites.
Coragem.
Consciência.
Presença.
E uma relação comigo que, apesar de ainda estar a ser construída, hoje existe de uma maneira diferente.
Talvez seja isso que a vida faz.
Tira-nos algumas coisas.
Dá-nos outras.
E, pelo caminho, vai-nos transformando.
Por isso, se hoje me perguntassem o que ganhei, talvez a resposta mais honesta fosse:
ganhei-me.
Não completamente.
Ainda não.
Mas o suficiente para começar a reconhecer-me quando olho para dentro.
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