Recomeços
O que o caminho levou
Não percebi logo o que o Caminho estava a levar.
Quando parti, pensei apenas no que precisava de levar comigo.
A mochila.
A roupa.
A água.
Os sapatos.
As coisas necessárias para chegar.
Não pensei naquilo que poderia deixar para trás.
Mas o Caminho tem uma maneira silenciosa de nos despir do que já pesa.
Primeiro levou-me a pressa.
Ou, pelo menos, começou a levá-la.
Aquela necessidade de chegar.
De cumprir.
De saber quanto faltava.
Aprendi que alguns Caminhos não podem ser apressados.
E que há coisas na vida que também não podem.
Depois levou-me algumas certezas.
Eu gostava de ter respostas.
Gostava de saber o que fazer.
De perceber onde estava e para onde ia.
No Caminho, descobri que é possível continuar mesmo sem saber.
Que podemos dar um passo sem conhecer os vinte que vêm depois.
E talvez tenha sido aí que comecei a confiar um pouco mais.
Levou-me também a necessidade de controlar tudo.
Porque há coisas que não controlamos.
O tempo.
O corpo.
O cansaço.
A chuva.
A distância.
Os encontros.
As despedidas.
Há momentos em que só podemos continuar.
Ou parar.
E aceitar.
O Caminho levou-me ainda uma parte daquela mulher que achava que precisava de aguentar sempre.
Que podia fazer mais um pouco.
Caminhar mais um quilómetro.
Não parar.
Não reclamar.
Não precisar.
Mas o corpo ensinou-me outra coisa.
Há momentos em que parar é continuar.
Descansar também é caminhar.
E reconhecer os nossos limites não nos torna fracos.
Torna-nos atentos.
Levou-me algumas culpas.
Não todas.
Ainda carrego algumas.
Mas deixou-me perceber que não preciso de levar comigo tudo aquilo que já aconteceu.
Nem todas as escolhas precisam de continuar a ser julgadas.
Nem todas as histórias precisam de uma explicação.
Há coisas que simplesmente aconteceram.
E posso seguir.
Levou-me também algumas expectativas.
A ideia de que devia saber quem sou.
O que quero.
O que vem depois.
Como deveria ser a minha vida.
Comecei a perceber que talvez não exista uma versão final de mim.
E que isso não é assustador.
É liberdade.
O Caminho levou-me algumas camadas.
A mulher que precisava de parecer forte.
A mulher que tentava corresponder.
A mulher que queria fazer tudo bem.
A mulher que tantas vezes se esquecia de perguntar:
“E eu?”
Não desapareceram completamente.
Ainda vivem em mim.
Mas já não ocupam o mesmo espaço.
Quando cheguei ao fim, não senti que tivesse deixado tudo para trás.
Algumas coisas vieram comigo.
As pessoas.
As memórias.
As aprendizagens.
As dores.
As perguntas.
Mas havia coisas que já não precisavam de continuar a viajar comigo.
E talvez seja essa uma das maiores coisas que o Caminho nos ensina:
não precisamos de chegar ao fim a carregar tudo o que levámos no início.
Podemos mudar de ideias.
Podemos largar pesos.
Podemos deixar ir.
Podemos chegar diferentes.
Hoje, quando penso no que o Caminho levou, não penso apenas no que perdi.
Penso no espaço que ficou.
Porque cada coisa que deixamos cair abre algum lugar dentro de nós.
E talvez seja por isso que me senti tão leve no fim.
Não porque a vida tivesse ficado mais simples.
Mas porque eu já não queria carregar tudo.
O Caminho levou-me algumas coisas.
E eu deixei.
Sem lutar.
Sem tentar recuperá-las.
Porque algumas coisas não foram feitas para continuar connosco.
Foram feitas para nos ensinar.
E depois,
para ficar pelo caminho.
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