Recomeços

O que perdi

Mara Cruz 3 min de leitura

Há coisas que perdemos e sabemos exatamente quando.

Uma pessoa.

Um emprego.

Uma casa.

Uma relação.

Outras perdas são muito mais silenciosas.

Não conseguimos apontar o momento em que aconteceram.

Só um dia percebemos que alguma coisa já não está lá.

Durante muito tempo, pensei nas perdas como aquilo que deixamos para trás.

Hoje percebo que também podemos perder partes de nós.

Perdi alguma ingenuidade.

Aquela forma de acreditar que as coisas acontecem porque têm de acontecer e que, se fizermos tudo bem, tudo acaba por correr bem.

Perdi algumas certezas.

E, estranhamente, talvez isso não tenha sido uma coisa má.

Perdi a necessidade de agradar a toda a gente.

Ainda aparece, às vezes.

Mas já não manda tanto em mim.

Perdi a vontade de permanecer em lugares onde preciso de me explicar constantemente.

Perdi algumas pessoas.

Algumas foram embora.

Outras fui eu que deixei ir.

E há relações que não terminaram propriamente.

Apenas deixaram de ser aquilo que eram.

Talvez essas sejam algumas das perdas mais difíceis.

Porque não existe um momento claro para nos despedirmos.

Há apenas uma distância que cresce devagar.

Também perdi tempo.

Tempo que não volta.

Dias em que estava demasiado preocupada com o que viria depois para reparar verdadeiramente no que estava a acontecer naquele momento.

Dias em que estava presente fisicamente, mas longe de mim.

Perdi algumas oportunidades.

Algumas por medo.

Outras porque simplesmente ainda não estava preparada.

E durante muito tempo pensei que devia lamentar todas elas.

Hoje não sei.

Talvez algumas coisas que não aconteceram também tenham sido caminhos que a vida fechou por alguma razão.

Perdi também algumas versões de mim.

E talvez essa seja a perda que mais me transforma.

A mulher que achava que precisava de aguentar tudo.

A mulher que confundia ser forte com não pedir ajuda.

A mulher que dizia “está tudo bem” quando não estava.

A mulher que tantas vezes colocou os outros antes de si sem sequer perceber que o estava a fazer.

Essa mulher já não existe da mesma maneira.

E, durante algum tempo, tive dificuldade em aceitar isso.

Porque também podemos sentir saudades de quem fomos.

Mesmo quando sabemos que já não queremos voltar a ser essa pessoa.

Hoje penso que crescer tem muito de perda.

Para nos tornarmos quem somos, algumas coisas têm de ficar para trás.

Crenças.

Medos.

Expectativas.

Pessoas.

Lugares.

Formas de viver.

Formas de nos relacionarmos connosco.

E talvez o mais difícil seja perceber que nem tudo aquilo que perdemos precisa de ser recuperado.

Algumas coisas precisam simplesmente de ser agradecidas.

Pelo que nos deram.

Pelo que nos ensinaram.

Pelo tempo em que fizeram sentido.

E depois deixadas ir.

Ainda há coisas que lamento ter perdido.

Claro que há.

Não quero transformar todas as perdas em aprendizagens bonitas.

Há coisas que doeram.

Há coisas que ainda doem.

Há perdas que não precisam de uma explicação para serem perdas.

Mas hoje consigo olhar para trás e perceber que nem tudo o que perdi me diminuiu.

Algumas coisas abriram espaço.

E talvez seja isso que estou a aprender agora:

- nem sempre perder significa ficar com menos.

Às vezes, perder é finalmente deixar espaço para alguma coisa nova poder existir.

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