Recomeços
O silêncio que precisava
Eu não sabia que precisava de silêncio.
Achava que precisava de respostas.
De decisões.
De saber o que fazer a seguir.
De organizar pensamentos que pareciam nunca parar.
Mas talvez, antes de tudo isso, precisasse apenas de silêncio.
Nos Caminhos de Santiago, o silêncio apareceu de uma forma diferente.
Não era ausência.
Era presença.
Estava nos primeiros passos da manhã, quando o mundo ainda parecia adormecido.
Estava no som dos meus pés no caminho.
Na respiração.
Nas árvores.
No vento.
Naqueles momentos em que caminhava sem falar com ninguém e, ainda assim, não me sentia sozinha.
Ao princípio, estranhei.
Estamos tão habituados ao ruído que, quando ele desaparece, quase não sabemos o que fazer connosco.
Temos o telemóvel.
As mensagens.
As notícias.
As tarefas.
As conversas.
Os pensamentos.
Tudo parece pedir a nossa atenção.
E, de repente, eu tinha apenas um caminho à minha frente.
E tempo.
Muito tempo.
Foi nesse silêncio que algumas coisas começaram a aparecer.
Pensamentos que eu tinha adiado.
Cansaços que não tinha reconhecido.
Perguntas que não queria fazer.
E sentimentos que talvez tivesse mantido ocupados durante demasiado tempo.
Percebi que o silêncio não me estava a dar respostas.
Estava a dar-me espaço para ouvir as perguntas.
E isso foi importante.
Porque, quando estamos constantemente rodeados de ruído, é muito fácil confundir aquilo que queremos com aquilo que esperam de nós.
No silêncio, a diferença começa a aparecer.
Comecei a ouvir uma voz que conhecia, mas à qual nem sempre dava espaço.
A minha.
Não era uma voz grandiosa.
Não me dizia o que fazer.
Apenas perguntava, baixinho:
“E tu?”
E essa pergunta ficou comigo.
E tu?
Como estás?
O que queres?
Do que precisas?
O que já não consegues continuar a ignorar?
Talvez tenha sido essa a verdadeira função do silêncio.
Não me afastar do mundo.
Devolver-me a mim.
Nos Caminhos, percebi que estar comigo não significava estar sempre tranquila.
Houve dias difíceis.
Houve dor.
Cansaço.
Momentos em que queria chegar.
Momentos em que duvidei.
Mas havia uma diferença:
eu estava presente.
Não estava a fugir imediatamente daquilo que sentia.
Estava ali.
Com o meu corpo.
Com os meus pensamentos.
Com aquilo que era.
E talvez essa presença tenha sido uma das maiores formas de cuidado que me ofereci.
Hoje tenho saudades daquele silêncio.
Não porque queira fugir da vida.
Mas porque agora sei o que ele me devolveu.
Devolveu-me espaço.
Devolveu-me atenção.
Devolveu-me uma parte de mim que estava constantemente ocupada a responder ao mundo.
Talvez todos precisemos, de vez em quando, de um lugar onde ninguém nos pergunte nada.
Onde não tenhamos de explicar.
Resolver.
Produzir.
Cuidar.
Onde possamos simplesmente existir.
Para mim, esse lugar foi o caminho.
E talvez seja por isso que, quando penso nos Caminhos de Santiago, não me lembro apenas das paisagens.
Lembro-me do silêncio.
Do meu silêncio.
Aquele que me permitiu ouvir coisas que, no ruído dos dias, eu já não conseguia escutar.
E, sobretudo, permitiu-me ouvir uma coisa muito simples:
eu ainda estava aqui.
Talvez fosse disso que eu precisava.
Não de me encontrar.
Porque nunca tinha realmente desaparecido.
Precisava apenas de silêncio suficiente para voltar a ouvir-me.
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