Reflexões

Os limites também dizem quem fica

Mara Cruz 3 min de leitura

Durante muito tempo, achei que impor limites era correr o risco de perder pessoas.

Que dizer “não” podia magoar.
Que deixar de estar sempre disponível podia ser interpretado como distância.
Que escolher-me podia fazer alguém sentir que já não era importante.

E talvez por isso tenha ultrapassado tantas vezes os meus próprios limites.

Fiquei quando queria ir.
Aceitei quando queria dizer que não.
Silenciei coisas que precisava de dizer.
E dei mais do que tinha para dar, muitas vezes só para não desiludir ninguém.

Até perceber uma coisa simples:

Impor limites não afasta quem me ama.
Afasta quem só gostava de mim enquanto eu não tinha limites.

Quem me ama pode não gostar sempre das minhas escolhas. Pode até estranhar a minha mudança. Mas não precisa que eu me diminua para ficar.

Quem me ama não precisa de acesso permanente a mim.
Não exige que eu esteja sempre disponível.
Não transforma o meu “não” numa ofensa.
Não me faz sentir culpada por escolher o que me faz bem.

Porque amar alguém também é respeitar o lugar onde essa pessoa termina e eu começo.

E foi aí que comecei a perceber que alguns afastamentos não são perdas.

São respostas.

Há pessoas que se afastam quando deixamos de fazer por elas aquilo que sempre fizemos.
Quando já não carregamos o que não nos pertence.
Quando deixamos de aceitar migalhas.
Quando percebemos que estar disponível para alguém não significa estar disponível para tudo.

E, no início, isso pode doer.

Porque ainda confundimos distância com rejeição.
Porque ainda nos perguntamos se fizemos alguma coisa errada.
Porque uma parte de nós continua a querer voltar atrás e facilitar tudo outra vez.

Mas depois chega a paz.

Aquela paz estranha de quem começa, finalmente, a perceber que não precisa de ser necessária para ser amada.

Que não precisa de agradar para merecer ficar.
Que não precisa de se explicar eternamente.
Que não precisa de se abandonar para que alguém permaneça.

Talvez os limites não sirvam apenas para proteger aquilo que somos.

Talvez também sirvam para mostrar quem consegue amar-nos quando já não estamos dispostas a deixar de ser nós próprias.

E, se algumas pessoas forem embora por causa disso, talvez seja preciso aceitar.

Nem toda a distância é uma perda.

Às vezes, é apenas a vida a devolver-nos espaço.

E, nesse espaço, começamos finalmente a respirar.

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