Recomeços
Porque saí
Durante algum tempo, pensei que precisava de uma boa razão para sair.
Uma razão que fosse suficientemente forte.
Que pudesse explicar sem hesitar.
Que ninguém pudesse contestar.
Como se, para termos o direito de partir, precisássemos primeiro de provar que ficar se tinha tornado impossível.
Mas a verdade é que nem sempre existe uma grande razão.
Às vezes existem muitas pequenas coisas.
Coisas que se vão acumulando.
Um desconforto que começa por ser pequeno.
Uma sensação que não sabemos explicar.
Dias em que chegamos a casa mais cansados por dentro do que por fora.
Momentos em que começamos a perceber que já não somos a mesma pessoa naquele lugar.
Eu fui ficando.
Porque talvez fosse mais fácil ficar.
Porque já conhecia as pessoas.
As rotinas.
As tarefas.
Porque sair significava não saber o que vinha depois.
E porque uma parte de mim ainda acreditava que devia conseguir fazer resultar.
Que talvez tivesse de me adaptar mais.
Ter mais paciência.
Ser menos sensível.
Esperar.
Tentar outra vez.
Até que comecei a perceber uma coisa:
não queria continuar a passar tanto tempo a tentar convencer-me de que estava bem num lugar onde não me sentia bem.
Não foi uma decisão tomada de um dia para o outro.
Foi acontecendo dentro de mim.
Primeiro veio a inquietação.
Depois a dúvida.
Depois aquela pergunta que começou a aparecer cada vez mais:
“É mesmo aqui que eu quero estar?”
E houve um momento em que percebi que já sabia a resposta.
Só ainda não tinha coragem de a dizer em voz alta.
Saí.
E, curiosamente, depois de sair, não senti apenas alívio.
Senti culpa.
Questionei-me.
Pensei se tinha desistido cedo demais.
Se devia ter tentado mais.
Se o problema teria sido eu.
É estranho como podemos tomar uma decisão com o coração inteiro e, ainda assim, passar dias a procurar argumentos contra ela.
Talvez porque fomos ensinados a associar permanência a força.
Como se ficar fosse sempre mais nobre do que partir.
Mas há lugares onde ficar não é resistência.
É abandono de nós próprios.
E há momentos em que sair não é desistir.
É escolher-nos.
Eu não saí porque tudo tinha sido mau.
Isso seria demasiado simples.
Houve pessoas boas.
Houve momentos bons.
Houve aprendizagem.
Houve coisas que levarei comigo.
Mas uma experiência não precisa de ser completamente má para deixar de ser o lugar certo para nós.
Também não preciso de transformar ninguém no vilão para justificar a minha saída.
Nem preciso de me transformar na culpada.
Às vezes, simplesmente não resulta.
E isso também é uma resposta.
Hoje consigo olhar para aquela decisão com mais serenidade.
Ainda não sei exatamente o que vem a seguir.
Mas já sei uma coisa:
não quero voltar a escolher um lugar apenas porque tenho medo de sair dele.
Quero aprender a reconhecer aquilo que me faz bem.
Aquilo que me dá espaço.
Aquilo que me permite ser eu sem estar constantemente a duvidar de mim.
Talvez seja isso que significa crescer.
Perceber que nem todas as portas que fechamos são perdas.
Algumas são limites.
Outras são libertação.
E algumas são simplesmente o início de um caminho que ainda não conseguimos ver.
Eu saí.
Não porque soubesse exatamente para onde ia.
Saí porque, finalmente, percebi que não saber para onde ir era menos assustador do que continuar num lugar onde já sabia que não queria ficar.
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