Recomeços

Quem eu era

Mara Cruz 3 min de leitura

Às vezes pergunto-me quem eu era antes de me tornar quem sou.

Não é uma pergunta fácil.

Porque, quando olhamos para trás, temos tendência a contar a nossa história como se tudo fizesse sentido.

Como se soubéssemos para onde estávamos a ir.

Mas eu não sabia.

Eu era apenas uma mulher a tentar descobrir o seu lugar.

Tinha sonhos.

Medos.

Expectativas.

Algumas certezas que hoje já não tenho.

E muitas dúvidas que, na altura, nem sequer sabia formular.

Eu queria fazer as coisas bem.

Queria ser boa filha.

Boa mulher.

Boa mãe.

Boa profissional.

Queria corresponder.

Queria não desiludir.

Queria sentir que estava a fazer tudo aquilo que era suposto fazer.

Talvez tenha passado demasiado tempo a perguntar-me:

“O que esperam de mim?”

E pouco tempo a perguntar:

“O que quero eu?”

Eu era exigente comigo.

Mais do que precisava.

Achava que tinha de conseguir.

Que não podia falhar.

Que devia saber.

Que precisava de ter respostas.

E quando alguma coisa não corria bem, era muito fácil olhar primeiro para mim e perguntar o que tinha feito de errado.

Talvez tenha confundido, algumas vezes, responsabilidade com culpa.

E força com capacidade de aguentar tudo.

Eu era muitas coisas ao mesmo tempo.

Profissional.

Mulher.

Mãe.

Companheira.

Filha.

Amiga.

E, no meio de tantos papéis, às vezes esquecia-me de uma coisa simples:

eu também era apenas eu.

Uma mulher que precisava de parar.

Que tinha medo.

Que se cansava.

Que nem sempre sabia o que queria.

Que também precisava de colo.

Que nem sempre estava bem, mesmo quando dizia que estava.

Mas havia uma parte de mim que continuava a acreditar que, se fizesse tudo certo, encontraria finalmente a sensação de estar no lugar certo.

Hoje sei que talvez não exista esse lugar perfeito.

Talvez a vida não seja sobre chegar a uma versão definitiva de nós.

Talvez seja sobre ir deixando cair, pouco a pouco, aquilo que já não somos.

Quando olho para a mulher que fui, não sinto vontade de a corrigir.

Sinto vontade de a abraçar.

Dizer-lhe que não precisava de ter tanta pressa.

Que não precisava de saber tudo.

Que não precisava de agradar a toda a gente.

Que algumas portas fechadas não eram fracassos.

Que alguns fins eram apenas começos que ainda não conseguia reconhecer.

E, sobretudo, que não havia nada de errado em não saber quem queria ser.

Porque eu ainda estava a tornar-me.

Talvez todos estejamos.

A mulher que fui fez escolhas com aquilo que sabia naquele momento.

Amou com aquilo que conseguia.

Trabalhou.

Cuidou.

Aguentou.

Errou.

Recomeçou.

E continuou.

Não quero olhar para trás para lhe dizer que devia ter feito diferente.

Quero agradecer-lhe.

Porque foi ela que me trouxe até aqui.

Até esta mulher que hoje começa, finalmente, a fazer perguntas diferentes.

Não apenas:

“O que esperam de mim?”

Mas:

“Quem sou eu quando ninguém está a esperar nada?”

Talvez seja essa a pergunta que abre este capítulo.

Porque a mulher por detrás da bata sempre esteve aqui.

Eu é que demorei algum tempo a olhar verdadeiramente para ela.

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