Recomeços
Quem me tornei
Não sei exatamente quando aconteceu.
Não houve um dia específico.
Nenhuma manhã em que acordei e percebi: hoje sou outra mulher.
Foi acontecendo devagar.
Nas escolhas que fiz.
Nas coisas que deixei de aceitar.
Nas pessoas de quem me aproximei.
Nas que precisei de deixar ir.
Nas vezes em que disse “não” com medo de desiludir.
Nas vezes em que escolhi ficar em silêncio.
E, sobretudo, nas vezes em que comecei a ouvir aquilo que sentia.
Durante muito tempo, pensei que crescer era tornar-me mais forte.
Hoje penso que talvez seja aprender a reconhecer quando não precisamos de ser fortes o tempo todo.
Tornei-me uma mulher que já não quer ter resposta para tudo.
Que consegue dizer “não sei”.
Que percebe que mudar de opinião não é fraqueza.
Que já não vê todas as despedidas como fracassos.
Que começa a entender que aquilo que termina também pode ter cumprido o seu propósito.
Tornei-me mais atenta.
Aos outros, mas sobretudo a mim.
Ao que o meu corpo diz quando a minha cabeça insiste em dizer que está tudo bem.
Àquela sensação difícil de explicar que aparece antes de eu conseguir encontrar as palavras.
Ao cansaço.
À inquietação.
À necessidade de parar.
Durante muito tempo, talvez tenha tentado ouvir toda a gente antes de me ouvir a mim.
Hoje estou a aprender a inverter essa ordem.
Não porque os outros deixaram de importar.
Mas porque percebi que também faço parte da equação.
Tornei-me uma mulher que já não quer caber em todos os lugares.
E esta talvez tenha sido uma das aprendizagens mais difíceis.
Porque há lugares onde passámos muito tempo a tentar encaixar.
Pessoas que quisemos agradar.
Papéis que desempenhámos tão bem que acabámos por esquecer que eram apenas papéis.
Até que um dia percebemos que estar num lugar onde precisamos constantemente de diminuir uma parte de nós não é pertença.
É esforço.
E eu já não quero confundir as duas coisas.
Tornei-me mais consciente de que a vida não precisa de parecer certa aos olhos dos outros para ser certa para mim.
Ainda tenho medo.
Ainda duvido.
Ainda me questiono.
Ainda há dias em que procuro respostas onde talvez só exista tempo.
Mas há qualquer coisa diferente.
Já não sinto a mesma necessidade de fugir imediatamente daquilo que não compreendo.
Consigo ficar um pouco mais nas perguntas.
No silêncio.
Na incerteza.
Talvez tenha sido isso que mais mudou em mim.
Não me tornei uma mulher que sabe exatamente quem é.
Tornei-me uma mulher que tem mais coragem para descobrir.
E talvez isso seja muito mais importante.
Porque quem eu sou hoje não é uma versão final.
É apenas a mulher que existe neste momento.
Com tudo o que viveu.
Com tudo o que perdeu.
Com tudo o que aprendeu.
Com tudo aquilo que ainda não sabe.
E, pela primeira vez, não sinto necessidade de me apressar para chegar a algum lugar.
Talvez eu não precise de me tornar outra pessoa.
Talvez precise apenas de continuar a retirar, pouco a pouco, tudo aquilo que não sou.
Até ficar apenas eu.
Sem a bata.
Sem os papéis.
Sem aquilo que esperam de mim.
Sem a necessidade de provar nada.
Eu.
E talvez seja aí que começa a verdadeira pergunta:
não quem me tornei, mas quem ainda posso ser.
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