Recomeços

Uma despedida

Pessoas que ficaram

Mara Cruz 3 min de leitura

Há despedidas que fazemos porque queremos ir embora.

E há despedidas que fazemos porque percebemos que já não podemos continuar a ficar.

Talvez pareçam a mesma coisa.

Mas não são.

A minha despedida foi feita de muitas coisas.

De dúvidas.

De medo.

De alívio.

De tristeza.

E também de uma estranha sensação de liberdade.

Durante algum tempo, pensei que sair significava admitir que tinha falhado.

Que talvez devesse ter tentado mais.

Ter aguentado mais.

Ter esperado mais.

Talvez tivesse sido eu a não saber adaptar-me.

A não saber fazer melhor.

A não saber encontrar o meu lugar.

É curioso como, quando alguma coisa não resulta, somos tantas vezes nós próprios que procuramos primeiro a culpa.

Como se desistir de um lugar fosse o mesmo que desistir de nós.

Mas não era.

Eu simplesmente percebi que já não queria continuar naquele lugar.

E aceitar isso também foi uma forma de coragem.

Despedi-me de uma farmácia, mas não me despedi da bata.

Não me despedi das pessoas.

Não me despedi de tudo o que aprendi.

Não me despedi das histórias que ficaram comigo.

Nem das pessoas que me ensinaram alguma coisa sem saberem.

Essas coisas vieram comigo.

Talvez seja essa a parte estranha das despedidas.

Pensamos que estamos a deixar alguma coisa para trás, mas levamos connosco muito mais do que imaginávamos.

Levei rostos.

Vozes.

Conversas.

Sorrisos.

Algumas histórias.

E sobretudo a certeza de que, durante aquele tempo, eu fui importante para algumas pessoas.

Mesmo que apenas por cinco minutos.

Mesmo que tenha sido apenas porque as ouvi.

Hoje consigo olhar para trás com mais ternura.

Não preciso de transformar aquela experiência numa história perfeita.

Nem preciso de fingir que tudo foi bonito.

Houve coisas que me magoaram.

Houve coisas que não compreendi.

Houve dias em que me questionei demasiado.

Mas também houve aprendizagem.

E houve pessoas.

E isso ninguém me tira.

Talvez uma despedida não seja sobre fechar uma porta com força.

Talvez seja simplesmente sobre conseguir fechá-la sem continuar a olhar para trás à procura de uma razão para a ter mantido aberta.

Eu não sei ainda exatamente o que vem depois.

E, pela primeira vez, não sinto que precise de saber.

Há qualquer coisa de bonito em não ter o caminho todo traçado.

Em poder caminhar sem saber exatamente onde vou chegar.

Afinal, talvez eu tenha passado demasiado tempo a acreditar que precisava de saber quem queria ser.

Hoje começo a aceitar que talvez seja suficiente descobrir, passo a passo, quem já não quero deixar de ser.

E assim me despeço.

Sem raiva.

Sem certezas.

Sem promessas.

Apenas com gratidão pelo que fica.

E espaço para aquilo que ainda há de vir.

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Mária Cristina Barbosa Moreira

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