Recomeços
Voltar a Respirar
Há momentos em que não percebemos que estamos a prender a respiração.
Continuamos.
Levantamo-nos.
Trabalhamos.
Respondemos.
Sorrimos.
Fazemos o que é preciso.
E, de alguma maneira, vamos vivendo com o peito apertado sem perceber exatamente porquê.
Eu acho que passei algum tempo assim.
A tentar adaptar-me.
A tentar compreender.
A tentar fazer dar certo.
A tentar encontrar o meu lugar.
Até que um dia percebi que estava cansada de tentar respirar num lugar onde sentia que tinha de me encolher.
Sair não resolveu tudo.
Gostava que tivesse resolvido.
Gostava de poder dizer que, no dia seguinte, acordei leve, feliz e completamente certa da minha decisão.
Não foi assim.
Houve silêncio.
Houve dúvidas.
Houve dias estranhos.
Dias em que a liberdade parecia mais assustadora do que bonita.
Porque quando deixamos uma rotina, deixamos também uma parte daquilo que nos organizava.
E, de repente, temos espaço.
Muito espaço.
E nem sempre sabemos o que fazer com ele.
Mas, aos poucos, alguma coisa começou a mudar.
Comecei a acordar sem aquela sensação de que precisava de me preparar emocionalmente para o dia.
Comecei a perceber que o meu corpo estava menos tenso.
Que havia pensamentos que já não ocupavam tanto espaço.
Que conseguia estar em casa sem continuar mentalmente no trabalho.
Que podia passar um dia sem sentir que estava a falhar alguma coisa.
E foi aí que percebi:
talvez eu estivesse mesmo a precisar de respirar.
Respirar sem ter de justificar.
Sem ter de provar.
Sem ter de antecipar a reação de alguém.
Sem estar constantemente a pensar se tinha feito alguma coisa errada.
Respirar simplesmente porque podia.
É estranho como só damos valor a algumas coisas depois de as recuperar.
O silêncio.
O tempo.
A tranquilidade.
A vontade de fazer planos.
A capacidade de estar presente.
Até a vontade de não fazer absolutamente nada.
Comecei a descobrir que descanso não é preguiça.
Que não ter uma resposta imediata não significa estar perdida.
Que uma pausa não é necessariamente um vazio.
Às vezes, é recuperação.
Talvez eu tenha passado demasiado tempo a acreditar que precisava de saber qual seria o próximo passo.
Hoje estou a aprender a gostar um pouco mais do espaço entre um passo e outro.
Ainda tenho medo.
Ainda tenho dúvidas.
Ainda existem dias em que me pergunto o que vou fazer a seguir.
Mas já não sinto a mesma urgência de preencher esse espaço.
Porque há qualquer coisa que estou a descobrir nesse intervalo:
eu.
A mulher que existe quando não está a cumprir uma função.
Quando não está a atender.
Quando não está a cuidar.
Quando não está a responder.
Quando não está a tentar corresponder.
E talvez seja essa a verdadeira liberdade.
Não ter finalmente todas as respostas.
Mas conseguir respirar enquanto ainda estamos à procura delas.
Hoje, quando penso na decisão de sair, não penso apenas naquilo que deixei.
Penso no que o meu corpo recuperou.
O espaço.
O silêncio.
A calma.
A possibilidade de estar.
E, sobretudo, uma coisa que parecia tão simples e que, durante algum tempo, eu tinha esquecido:
respirar fundo sem sentir que precisava de pedir licença.
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